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Maria Carpi: vida e poesia, por Liana Timm - palestra projeto Literatura Grande do Sul

AGES - Associação Gaúcha de Escritores

 MARIA CARPI: vida é poesia

Liana Timm(artista multimídia e poeta)

 

Texto preparado especialmente para LITERATURA GRANDE DO SUL – AGES

Dia 17 de maio 2014 | 11h | Centro Cultural CEEE Erico Verissimo

…………………………………………………………………………………………………………………………………

Hoje estouaqui especialmente para falar sobre Maria Carpi, a poeta. Gostei demais do convite da nossa AGES, que na figura do escritor Caio Riter, tem, realmente dado voz e visibilidade à seus sócios.

Falar sobre poesiapara mim é um presente, uma vez que ela é parte indissociável da minha vida. E vamos começar com uma questão clássica, uma questão simples e ao mesmo tempo complicada: O que é poesia? A resposta pode ser semelhante a que Louis Armstrong deu quando lhe perguntaram o que  era o jazz: Se você não sabe o que é o Jazz, não adianta explicar!

 

Mas a nossa poeta arrisca a resposta:

 

A poesia não é o dia seguinte.

Mas o sem-fim.

O tremor do rio no mar.

O tremor do amor no rio da boca.

E de bússola, um coração claro, obstinado, sem âncoras.

 

Conheci Marianum evento de literatura há muitos anos atrás e ela de forma espon-tânea me chamou a atenção para o que temos em comum – além da poesia é claro – a nossa terra natal, situada no nordeste do Estado há 215 km da capital.

Até aquele diao lugar onde nasci era um ponto perdido no mapa das minhas lembran-ças, porque sempre foi raro encontrar alguém, também de Guaporé ou Serafina Corrêa.

Mas a partir dalialgo reverberou em mim, e o território redescoberto se encheu de significações.Maria se tornou mais que uma conterrânea. Na verdade a partir dali Maria se transformou numa cúmplice de segredos que nossa origem comum concede.

 

OS PÃES

 

Eu sou filha do interior

onde os pães não levedam

com acúmulos do acaso,

mas artesanal virtude

 

desde a luz do trigo

à luz da fome. Onde a

farinha e a água estão

à flor da pele. Onde não

é o grão que se prepara

para a boca, mas a boca

que amadurece para o grão.

O trigo dali não sobe,

 

mas desce-entre-nós.

O pão dali não apenas

sustenta, mas profere

a palavraque dorme

 

naapetência. O pão escuta.

 

Vidência e acaso, 1992.

 

Ainda sem me aprofundarem sua poesia, um dia ouvi Maria dizendo um poema,e fui capturada pelo seu jeito musical de dar vida às palavras inanimadas. De fazer ecoar a sonoridade intrínseca,do organismo vivo de sua linguagem expressiva. Depois, mergulhei na qualidade de sua poesia por várias vezes. Sim porque o poema não é para ser lido uma vez só. Ele se renova ao longo do tempo tornando-se outro e nos tornando também outro.

A poesia de Maria Carpié uma forma de resistência contra apadronização da lingua-gem e das ideias. É o lugar de experimentações infinitas, onde asversões de uma temá-tica eleita, revelam a impossibilidade de esgotamento. Seus livros levam à exaustão o pretexto escolhido,acionando nossas emoções e convocando todos os sentido, sempre de maneiras diferentes.

Maria se servedo que lhe aparece e, na intimidade do ser, articula o dizível e o indizível. Busca frestas, válvulas de escape, libertando novas visões de mundo. E trabalha ativando assim sua potência de poeta justamente nesta passagem ao ato.

 

24 A Migalha e a Fome

 

Que um fruto caia da árvore

é normal gravidade. Necessito,

da anormalidade da árvore

 

despencar de fruto levíssima.

Um fruto retirado da apetência

é real. Quero a irrealidade

 

do sabor desentranhar-te da fome.

Que um fruto desembarque

do invólucro é de visível gusto.

 

Quero a escuridão inabarcável

do viajante provador.Resmas

de borboletas à boca molhada.

 

E debruçar-me à janela das coisas

deixando o chapéu de palha seca

num pregopendurado, feito sol.

 

Maria Carpitem uma motivação interior inescapável, uma necessidade visceral de ex-pressar em linguagem o que  capta da vida. Inova o sentido na linguagem e toca de maneira surpreendente nas fragilidades de todos nós, soltando o ritmo, a musicalidade e a significação das palavraspara muito além do que é posto na invenção do verso.

72 Nos Gerais da dor

 

A Dor faz-me lembrar

de minha filiação na

Alegria.Das entranhas

de leite.O meu normal

é a impaciência, mas

frequentemente repouso

no deslocar dos verdes

ao Maduro.O meu normal

é a morosidade, mas

frequentemente sou

célere dentro do mel.

Implorante e implorado.

 

Dizemque a poesia não serve para nada, que não tem utilidade.Realmente, para que serve um poema?Para sentar como uma cadeira? Para esquentar comida como um microondas? Para fazer uma batida de frutas como um liquidificador?

Ainda por cimao poema afirma coisas absurdas, inverificáveis, falsas e enganosas! Brinca com as palavras, vira do avesso seus significados…deixa os sentidos sempre em abertos! Fragmenta, recria e inventa universos, não segue modelos e apresenta solu-ções sempre provisórias.

 

Nos gerais da dor 58

 

Eu quis fenecer

para não ver que

o amor não era

o Amor.E vê-lo,

não arredar de

vê-lo desfigurando-se,

por tudo vê-lo,

emparedado vivo

de vê-lo,descarnado,

foi-me ressuscitando.

 

Lembro Blanchotquando diz: Minha palavra é ao mesmo tempo, uma afirmação e uma negação do mundo inteligível, uma afirmação e um esquecimento do princípio da con-tradição.

Aliteratura abdicada verdade estabelecida, em favor da ambiguidade de seu próprio espaço discursivo: um espaço autosuficiente.Logo, a arte como um todo não é reflexo do mundo, não é acabada nem inacabada, ela simplesmente é.

A poesia de Maria Carpié assim: profana a linguagem, e qualquer profanação, segundo Agamben, é o único caminho para escaparmos dessa vida nua, imposta por umsistema dominante.

A poesia de Mariapensa sobre o possível e o real, sobre a liberdade e o poder, sobre a estética e a ética. Ética aqui, entendida como liberdade para experimentar a própria existência do jeito que quisermos.

 

Da árvore e do fruto 4

 

Tudo me dispersa.Uma

 boca me dispersa para

 

 uma fruta, uma fruta

me dispersa para um

 

pássaro, um pássaro

me dispersa para uma

 

estrela, uma estrela

me dispersa para uma

 

fonte.Mas em coisas

de amor, sou toda ouvidos.

 

Toda arte nosretira da zona de conforto e chama a atenção para o o obscuro, o pré-individual da vida. Pois queiramos ou não, vivemos na intimidade de um ser estranho, desconhecido, que a todo momento nos surpreende: nós mesmos.

Diante da normalidade da vida em que fomos jogados, o que é possível fazer?

A poesia é uma tentativa,uma impertinência que alguns inventam e outros lêem. Um risco que alguém assume, quebrando e reinventando a linguagem.

O poema dá vozao escondido. É uma arma de fugas, silêncios, declarações… que o poeta seautoriza a praticar.O poema aparece nas tensões dos movimentos entre o fora eo dentro, como a fita de moébius,e dá a ver algo diferente do usual.

A semente e a palavra2

 

Trabalhar o poema,

rijo construí-lo,

lapidando ou carpindo

a dureza do sonho.

 

é possível apenas

de forma reversa,

em labor suado,

não com o tema,

 

mas com a pessoa,

única materia prima,

 que o fabrica,

fabricando-se.

 

Ser capaz de ouviro poema é um bom começo. A primeira voz do poema,não quer dizer nada, não exige compreensão. A tonalidade e a modulação das palavras perpassam o poema e o abre para uma outra dimensão: a dimensão erótica do texto, ao gozo do texto,à fruição estética, como tão bem nos propõe Barthes.

Uma voz ainda semsignificaçõesteima, insiste,sensibiliza.Decide estilhaçar com a narrativa encadeada e, arrisca, vai ao limite na tessitura de um corpus sem sujeito e ao mesmo tempo assujeitado.

Cada poemaé uma experiência extrema que proporciona um encontro com o pensamento.

Quando escrevo,

Não sou um, mas dois.

O que dita e o que redige.

 

Quando amo,

Não sou dois, mas trê.:

Duas presenças

e uma ausência,

 

Quando morro,

com idos e vindos

do instante alvejado,

tríade transbordante…

 

sou tão só, um.

 

Expostos a tudo,algumas coisas desencadeiam em nós intenso envolvimento. Um filme, uma pintura, um poema, uma música,ao nos afetar, faz pensar. Uma singular afecção,transformanossa sensibilidade e nossa subjetividade. Ficamos implicados numa tensa conexão. 

Embebidos de vozesque nos constituem, contraímos alianças com toda a espécie de naturezae contamos com o outro para fazer, dizer, fruir o movimento motivado.

Como bem dizDeleuze, estes aliados são os nossos intercessores, aos quais chamamos para compor conosco esta necessidade expressiva.

O cão

Tive vários cães, mas esse

espera-me,à hora certa,

na saída da escola e carrega

 

a pasta de cadernos entre

os dentes e espera-me depois,

em incerta hora, para morrer,

 

Inchado entre a alta vegetação

e o terreno de meu assombro,

onde arrasta a ferida deflagrada.

 

Esse, a segurar a folha que escrevo.

 

Na dimensão do presente,as circunstâncias as quais estamos expostos, são trans-figurações de experiências passadas intensificadas. Quando fazemosacontecer uma lembrança, ela se desfaz, pois, na sua fugacidade, varia a cada aparição.

Maria recolhe nossosrestos possíveis pela imaginação, e os trabalha no presente vivo do tempo, aglutinando passado e futuro como dimensões do próprio presente.

Na subjetividade do tempo,qualquer lembrança repetida é diferente.

Basta contemplar,basta imaginar para que algo novo, seja transvasado à repetição. Mas é preciso considerar também a insuficiência da memória.

Do amor e da Água 2

 

Essa água

que sempre corre

em mim se demora

como uma ovelha.

 

Essa água

sempre submerse,

carrega-me às alturas

como uma pomba.

 

Essa água

sempre clara,

éa sombra onde

minha luz descansa.

 

É uma água

por perdida, achada.

 

A partir de contemplaçõesse definem todos os nossos ritmos, as nossas reservas, os nossos tempos de reações, os mil entrelaçamentos, os presentes e as fadigas que nos compõem(Deleuze). Contemplar é questionar o drama do presente. Do presente que passa e se imiscui em outros tempos. Tudo que volta é potência de transformação.

A potência da poesiaestá fora de qualquer lógica. É dúbia, escorregadia, inesperada, não se mostra de imediato e acima de tudo, é profunda. Quer os desvios da linguagem evai em busca de uma poética do espanto.

O Herói Desvalido, pag.49

 

O meu lugar é onde te esvazias.
Onde te ausentas, entro.

Onde te aquietas, canto.

Onde és campo aberto,

sou terra proibida, inculta.

A cada dia de tua colheita,

sou meio século de aguardo.

A cada progresso, a cada

avanço, marginalizo-me

em bueiros,baldios, fugas

d'água. A fulguração

do relâmpago nos fende.

 

O que senão a artepara nos proporcionar esta possibilidade de reverter o que a vida nos apronta?

Neste lugar obscuro,em permanente acontecimento, não de fruto mas de semente, nossa potência criativa é plena ebulição, em contraste com as restrições às quais somos submetidos no social.

O desregramento de todosos sentidos, de que falava Rimbaud, esse estado de transe que propõea alucinação das palavras, acontece aqui, em plena eclosão, numa imobili-dade total de máxima velocidade.

Na feitura artesanaldo poema é preciso serenidade para não perturbar os devires que intensificamas sensações, as possibilidadesde outrar-se, tornar-se outro outro e sempre outro.

Vidência e Acaso74

 

Esta árvore que eu escrevo,

como uma cama, foi cortada

ao meio.

E no 75 continua:

Metade quis ser barca

e navegar na água contida.

 

Outra quis ser bacia

e acolher a água derramada.


Um lado quis ser cuna

e adormecer quem despertava.

 

O outro quis ser caixão

e acordar quem se afundara.

 

Ser poeta é maisque escrever poesia. É um modo de ser, uma maneira de se relacionar com a vida.

Maria quandoem estado de poesia se sente parte douniverso.Invadida ela compõe o poema como uma partitura musical e afirma:

A prosa busca ser literatura e a poesia não quer ser literatura, ela quer ser rosto.

Maria se declarafiel a si mesma. Apaixonada pela lentidão, escreve, publica sem pressa e deixa acontecer. E sua poesia acontece, num território especial, buscando preservar, ampliar, redimensionar e enriquecer a própria língua.

Maria é autorade uma poesia exigente, diversa da literatura do entretenimento que hoje prolifera em nossa útil e funcional sociedade.

O poeta inglês T.S.Elliotpensa sobre isto quando recomenda: Devemos suspeitar do poeta que adquire grande popularidade com muita rapidez, pois nos faz temer não estar na verdade realizando nada de novo, mas apenas fornecendo ao povo aquilo a que já está acostumado e que portanto, recebeu dos poetas de gerações anteriores.

A poesia de Maria Carpié ao mesmo tempo natural e inesperada, perturbadora e apa-ziguante, surpreendente e simples.

Ler Maria Carpié ter a certeza de que qualquer argumento sempre será falho para ex-plicar a capacidade de encantamento da poesia.

Como bem diz Clarice: Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendi-mento.

 


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